SECAS DO SERIDÓ

Secas do Seridó antigo


A série imensa dessa tormenta climatérica que, aqui e noutras partes do mundo, se repete numa cadência quase matemática.

A desastrosa seca de 1744 / 1745, deixou profundas marcas na memória dos sertanejos. O seridoense Manoel Antônio Dantas Correia, um dos mais completos cronistas da terra, faz menção da fome e da morte, dizimando gente e animais. Um manuscrito seu, que o dr. Oto de Brito Guerra guarda carinhosamente data de 1847, é rico de informações. É impressionante o relato das misérias que o velho acariense recolheu. Crianças que andavam, voltaram a arrastar-se. Os moradores do rio Piranhas foram obrigados a desmanchar as redes de dormir para fazê-las redes de pescar, pescar peixe magro que só tinha espinhas e escama, e devorá-lo sem outra mistura que água e sal.

Apocalípticas são as memórias das secas de 1790 / 1791 / 1792 / 1793. Não choveu no sertão do Seridó, naqueles anos. Irimeu Jófili, em sua obra (Notas sobre a Paraíba), calcado em fontes fidedignas informa, que nessa terrível seca, além da vastação natural, apareceu tamanha quantidade de morcegos que, mesmo de dia atacavam pessoas e animais sem força mais de afugentá-los. Pelas estradas, pousadas e mesmo dentro de casa, homens, mulheres e crianças, mortos ou moribundos, arrastavam-se exangues pela fome e pelos morcegos. Amontoavam-se, às vezes, pessoas ainda vivas, prostradas no chão ou nos leitos, cobertas de vampiros que as pobres vítimas não tinha mais força para enxotar.

Manoel Basílio de Brito Guerra, sobrinho do Padre Guerra, num esboço biográfico sobre o tio senador, depondo a respeito da grande secas, de 1790 / 1791 / 1792 / 1793, escreve: - “Os gados grossos e miúdos acabaram-se quase totalmente no sertão, não só pela falta de alimentação, como pelo fato de serem sangrados e chupados pelos morcegos.

Quando minha bisavó (a mãe do Padre Guerra) retirou-se com os filhos para os brejos do Apodi, para ali passar o período da seca, conduziu as cabras que ainda lhe restavam e deixou na fazenda Jatobá, seu escravo de nome Inácio, ao qual, de lá no Apodi, 13 léguas de distância, mandava a alimentação. Numa dessas remessas, o condutor achou-o morto dentro da casa, portas abertas, mordido e chupado dos morcegos, tendo ao lado uns restos de comida, que não teve mais força de tomar.”

As crônicas de Dantas Correia sobre as secas do Nordeste abrangem um período de mais de um século, de 1723 a 1847. Diz que as escreveu baseado em tradições verdadeiras. Depois de mencionar o quadro tétrico só nestes sertões, como nos sertões vizinhos e nos Brejos. O povo dispersou. Foi nesse ano entretanto, que, no Seridó, se fincou o primeiro marco de combate as secas. E foi no rio Acauã que começou a história. Um homem teve certo dia, a ideia de espelhar as areias escaldantes. Abriu uma vala, encontrou umidade e plantou qualquer coisa. Operou-se o milagre da primeira vazante. A notícia sem espalhou e o exemplo pegou. Uma era nova começava, um capítulo novo da história econômica do Seridó se abria, e Dantas Correia não esconde o entusiasmo pela descoberta. Chegaram até mudar o nome do rio Acauã. Agora era o Nilo do Seridó, o nosso Nilo. E acrescenta que, enquanto gente e animais, retirando-se para lugares diversos, pereciam à fome e à sede, os que tinham cultivado o rio milagroso passavam na fartura.

Seca - 1844 / 1845 / 1846 - O desembargador Felipe Guerra, citando crônicas de seu pai, o Barão do Açu, informa que esse ano foi de doença e de mortandade em gente e animais, de carência e de carestia e viveres, de fome, e de clamor lamentoso do povo, de pertubação civil. Em abril, porém, sobreveio pavoroso verão, que degenerou em seca. Uma fenomenal peste de lagartas manifestou-se, como nunca se vira cobrindo, qual nuvem maldita, os campos em extensão sem fim. As águas dos rios e dos poços se tingiram de sangue, proveniente das folhas das lagartas deitavam abaixo. Lavar roupa tornou-se problema sério. Peixes morriam tinguijados nessas águas. Nos sertões do Ceará, camponeses eram obrigados a evacuar choupanas, e, na serra do Cuité, as lagartas, depois de destruir, como um fogo, as plantações, morriam aos montões e serviam de pasto aos bandos de urubus que sobre eles esvoaçavam.

Dantas Correia fecha suas crônicas, mencionando a seca de 1845, a mais pavorosa que ele viu em vida. Tinha, nesse ano, setenta e sete anos de idade, e faleceria oito anos mais tarde.

Descreveu a catástrofe de 1845 com uma exclamativa de assombro: - “Entrou 1845. Ah! 1845!”. A sensibilidade cristã sertaneja do velho cronista se traduz nesse desabafo. Mas, houve rasgos de heroísmo. A população do Seridó diz ele, portou-se bravamente. Laboriosa e esforçada, apelou para as vazantes dos rios e delas tirava feijão e frutas. Ramas, capim e peixe eram levados para Assú, Mossoró e Brejos (Paraíba). A seca foi geral.

O desembargador Felipe Guerra escreve coisas como estas: -“A fome, a indigência, a miséria, a honra das donzelas, a fidelidade conjugal, a boa de fé de muitos deu pasto à usura, à perversidade. Espetaculadores obtiveram o preço mínimo indigno, outro, prata e escravos. Mais que jóias preciosas e antigas, valiam mel de furo, farinha, migalhas de alimentos”.

Desapareceu a segurança nas estradas. O Seridó, de gente tão ordeira e pacífica, foi, naquele ano, por força das circunstâncias, teatro de cenas terríveis. Encontrei num livro de óbitos da paróquia de Caicó, do ano de 1845, o registro do assassinato de um caixeiro-viajante vindo de Assú, foi morto a machadadas na localidade de Barro Branco, a meio caminho entre Jucurutu e Caicó.

Dantas Correia conclui suas crônicas com oportunas considerações. E de opinião que as secas são necessárias, por vários motivos. Reformaram os rebanhos, descansam a terra e fazem os homens industriosos. Não há dúvida, a seca é uma grande mestra, e o sertanejo é o seu melhor aluno, o seu maior mártir. De um grande mal o homem aprende a tirar um grande bem. A seca é a mãe das encantadoras vazantes e de açudagem. Foi ela que ensinou ao sertanejo que nem toda água deve correr para o mar. A seca é uma lição de amor, de amor à terra lição de perseverança, de tenacidade.

O último período de Dantas Correia é o testemunho da fé profunda que lhe ilumina o coração. - “As secas, conclui ele, são dadas por uma sabedoria infinita que não pode errar e que tudo dispõe para o bem e de seus filhos”.

Caixeiro-viajante: É uma profissão antiga de vendedor e transportador. Antigamente, quando não havia facilidade do transporte entre cidades, os caixeiros-viajantes eram a única forma de transportar produtos entre diferentes cidades no interior. Geralmente vendiam objetos manufaturados, tecidos, jóias, etc.

Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org
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